A cara colada ao lençol
mas há a luz e a comoção exterior a preencherem
a vacuidade do quarto.
é uma sensação estranha acordar assim quase sem vida
quase esgotado com a quase certeza de que não existe
realidade e o que lá tentamos colocar não faz sentido.
O corpo a despregar-se da cama
enquanto os automóveis buzinam em harmonia com o piano imaginário
talvez real de uma mão que ficou presa às teclas a esta distância
do mundo parece Liszt os segundos iniciais de Prelude & Fugue
on B-A-C-H o piano em sintonia como os automóveis enquanto
o autocarro das oito contorna uma curva depressa demais
e o chiar incómodo de pneus e chassis derrapa no peitoril da janela
enquanto o peitoril da janela juntamente com o autocarro e os automóveis
e a mão de Liszt crescem no quarto num foco de luz sonoro.
Os olho remelosos
a respiração subitamente ofegante
e a janela
a janela em contínua sintonia com...
estou vivo.
existo.
queria apanhar o eléctrico até ao castelo pegar-te pela mão poder
dizer de novo os nomes da cidade do outro lado fica o barreiro vivi aí
durante anos noutra margem oposta a esta faz-me falta a rotina
do nosso amor as ciências e as filosofias actuais não me deixam pensar
com clareza há ainda a economia as moedas de troca o crepúsculo em ruínas
da manhã não me deixa acreditar... pegar-te pela mão...
dizer-te os nomes...
estou vivo
dentro de um automóvel ou de um autocarro ou sentado no peitoril
de uma janela a inumerar as contradições incoerências especulações e por isso
certamente por isso apodreço no lugar estático de espectador
aborrecido há um foco de luz sonoro nos jardins da gulbenkian
enquanto os pombos gordos assassinam mais um melro há um foco
de luz sonoro na rua augusta enquanto as lojas e os comerciantes
e os passageiros ocasionais se atropelam na ossiânica falta
de coordenação mas algo belo resiste sob os escombros em movimento
a cidade à espera que o tempo leve como o mar algo belo o tempo-mar
levando as marcas de uma civilização o tempo-mar trazendo novas
consciências novas formas de olhar a cidade.
[há quase uma ausência temporal quando estamos sós
porque a condição humana de solidão contrai-nos a memória
remete-nos para outras dimensões para outros espaços
e então é a própria concepção de tempo que se parece abstrair de nós
e deixamos de sentir a vida numa única linha contínua]
estou vivo.
existo.
penso que existo.
e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.
Vista do castelo a cidade é quase inteira quase moldura orgânica
jamais morta jamais esgotada e quase me convence no seu ciciar
ondulante que no topo da colina estamos juntos estamos sós
a cidade e eu sem mais ninguém a encher-nos de equívocos.
Posted at 02:03 pm by Astrophel
Janela