“e, então, pousavas os talheres paralelamente
sobre o prato e dizias:
‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’
repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas
Ricouer como os amantes de agora amam o rosto do infinito
e, então, eu pegava na caneta preta
sempre uma caneta preta
e começava a escrever na folha de papel
que cobria a mesa destes sítios onde nos íamos perdendo
destes sítios onde nos encontrávamos com a regularidade
dos amantes inconscientes do tempo que passa
escrevia
no silêncio das tuas frases a ausência de mim:
‘‘e, então, pousavas os talheres paralelamente
sobre o prato e dizias:
‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’
repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas
Ricoeur como os amantes de agora amam o rosto do infinito’’
e, depois, no espaço que antecedia o adeus
sempre um adeus
ou no compasso de espera pelo último whisky
olhava as palavras que ficariam no papel abandonado
e deitado ao lixo e pensava se seria eu-mesmo realmente um outro
ou ainda um resto de sombra na caverna das noites sem fim”