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Rumba dos Inadaptados
(Ou A Morte do Jovem Contribuinte)


No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de Domingo, no correio dos leitores, dizia assim: "Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros, da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes: Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas entrevistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados: são tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo da esperança na vaga mudança que nunca vai acontecer: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!"

João Paulo Simões
(Quinteto Tati)




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Friday, July 15, 2005
...

 

“e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricouer como os amantes de agora amam o rosto do infinito

e, então, eu pegava na caneta preta

sempre uma caneta preta

e começava a escrever na folha de papel

que cobria a mesa destes sítios onde nos íamos perdendo

destes sítios onde nos encontrávamos com a regularidade

dos amantes inconscientes do tempo que passa


escrevia

no silêncio das tuas frases a ausência de mim:
‘‘e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricoeur como os amantes de agora amam o rosto do infinito’’

e, depois, no espaço que antecedia o adeus

sempre um adeus

ou no compasso de espera pelo último whisky

olhava as palavras que ficariam no papel abandonado

e deitado ao lixo e pensava se seria eu-mesmo realmente um outro

ou ainda um resto de sombra na caverna das noites sem fim”

 

 


Posted at 08:34 pm by Astrophel

Celso
August 1, 2005   03:24 AM PDT
 
Que belíssimo texto. Primeira vez neste blog. Mas voltarei, por certo.

Saudações
 

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