...Ossa et Cinera...







...Ossa et Cinera...


   

<< September 2005 >>
Sun Mon Tue Wed Thu Fri Sat
 01 02 03
04 05 06 07 08 09 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30

Rumba dos Inadaptados
(Ou A Morte do Jovem Contribuinte)


No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de Domingo, no correio dos leitores, dizia assim: "Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros, da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes: Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas entrevistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados: são tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo da esperança na vaga mudança que nunca vai acontecer: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!"

João Paulo Simões
(Quinteto Tati)




Outros Espaços:

A Caixa
arco-íris
Atravessando o Inverno (Astrophil)
chuva diluviana
Borderline (§j§)
conFusão (groze e amaagari)
dawning dusk (sete-sóis)
é o diabo
espiral (§j§)
exanimatus (groze)
lonely gigolo (groze)
nocturno com gatos
saliva (Astrophil)
scorpionica
[MyLostWords]




If you want to be updated on this weblog Enter your email here:



rss feed



 
Wednesday, September 07, 2005
Acordar

 

A cara colada ao lençol

 

mas há a luz e a comoção exterior a preencherem

a vacuidade do quarto. 

 

é uma sensação estranha acordar assim quase sem vida

quase esgotado com a quase certeza de que não existe

realidade e o que lá tentamos colocar não faz sentido.

 

O corpo a despregar-se da cama

 

enquanto os automóveis buzinam em harmonia com o piano imaginário

talvez real de uma mão que ficou presa às teclas a esta distância

do mundo parece Liszt os segundos iniciais de Prelude & Fugue

on B-A-C-H  o piano em sintonia como os automóveis enquanto

o autocarro das oito contorna uma curva depressa demais

e o chiar incómodo de pneus e chassis derrapa no peitoril da janela

enquanto o peitoril da janela juntamente com o autocarro e os automóveis

e a mão de Liszt crescem no quarto num foco de luz sonoro.

 

Os olho remelosos

a respiração subitamente ofegante

e a janela

a janela em contínua sintonia com...

 

estou vivo.

existo.

 

queria apanhar o eléctrico até ao castelo pegar-te pela mão poder

dizer de novo os nomes da cidade do outro lado fica o barreiro vivi aí

durante anos noutra margem oposta a esta faz-me falta a rotina

do nosso amor as ciências e as filosofias actuais não me deixam pensar

com clareza há ainda a economia as moedas de troca o crepúsculo em ruínas

da manhã não me deixa acreditar... pegar-te pela mão...

dizer-te os nomes...

 

estou vivo

 

dentro de um automóvel ou de um autocarro ou sentado no peitoril

de uma janela a inumerar as contradições incoerências especulações e por isso

certamente por isso apodreço no lugar estático de espectador

aborrecido há um foco de luz sonoro nos jardins da gulbenkian

enquanto os pombos gordos assassinam mais um melro há um foco

de luz sonoro na rua augusta enquanto as lojas e os comerciantes

e os passageiros ocasionais se atropelam na ossiânica falta

de coordenação mas algo belo resiste sob os escombros em movimento

a cidade à espera que o tempo leve como o mar algo belo o tempo-mar

levando as marcas de uma civilização o tempo-mar trazendo novas

consciências novas formas de olhar a cidade.

 

[há quase uma ausência temporal quando estamos sós

porque a condição humana de solidão contrai-nos a memória

remete-nos para outras dimensões para outros espaços

e então é a própria concepção de tempo que se parece abstrair de nós

e deixamos de sentir a vida numa única linha contínua]

 

estou vivo.

existo.

 

penso que existo.

e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.

 

Vista do castelo a cidade é quase inteira quase moldura orgânica

jamais morta jamais esgotada e quase me convence no seu ciciar

ondulante que no topo da colina estamos juntos estamos sós      

a cidade e eu sem mais ninguém a encher-nos de equívocos.

 

 


Posted at 02:03 pm by Astrophel

whyme
September 9, 2005   01:29 PM PDT
 
Finalmente alguém se atreveu a colocar um novo post! Gostei muito do poema, parabéns! Agora não fiques (m) é outra vez tanto tempo a escrever para a gaveta :-)
 

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments




Previous Entry Home Next Entry