...Ossa et Cinera...







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Rumba dos Inadaptados
(Ou A Morte do Jovem Contribuinte)


No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de Domingo, no correio dos leitores, dizia assim: "Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros, da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes: Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas entrevistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados: são tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo da esperança na vaga mudança que nunca vai acontecer: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!"

João Paulo Simões
(Quinteto Tati)




Outros Espaços:

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Monday, July 04, 2005
Cicatriz

 

Três miúdos

escrevem na areia com os pés

uma história que se repetirá para sempre

 

somos nós

a correr em direcção ao mar de braços abertos

como aviões prestes a levantar voo

 

somos nós 

a querer planar até à crista das ondas

enquanto nas nossas costas o sol se vai pondo

e o vento revolve a areia.

 


Posted at 01:56 pm by Astrophel
Comentários (3)  

 
Tuesday, June 14, 2005
No palco dos dez mil poetas

 

[e seríamos também os vencidos da vida

mas sem uma palavra de revolta sem um grito sem um murro

na mesa sem um choque não esse tecnológico inevitável

sem um choque eléctrico colectivo no cérebro]

 

faz-me falta uma meia dúzia de punhos fortes que agitem

este palco de sombras que digam não aos intelectuais instituídos

aos gostos instituídos aos prazeres instituídos às condutas instituídas

às dez mil tristezas instituídas faz-me falta um Antero ou alguém

do seu pulso que escreva e diga realmente alguma coisa importante

ou que não escreva mas fale e faça (porque às vezes é preciso levar

a espada à frente da pena) faz-me falta a mim pequeno escritor

de sítios recônditos a urgente geração do futuro

 

[e se no final formos vencidos pela vida

pois que cantemos a saudade ou rebentemos os miolos

para outros mais jovens nos tomarem o lugar]

 


Posted at 05:20 pm by Astrophel
Comentário (1)  

 
Tuesday, June 07, 2005
Solipso

 

0

 

(A solidão

tão completa

de tão pouco

que havia

a partilhar

dilatava o espaço

inabitável

entre o humano

e a sua expressão)

 

 

1

 

A mulher nua ao canto

encoberta pela penumbra

repetia numa voz monocórdica

o murmúrio das raízes

 

a sua boca estava cosida

e o homem sentado numa cadeira

sob a luz intermitente

esperava a guilhotina automática

sem se mexer

 

nas veias de ambos

pequenos bichos metálicos

reproduziam o som fascinante

de velhos fonógrafos e assassinavam

lentamente o mundo exterior

 

quando a guilhotina automática

entrou no compartimento exíguo

o homem já não sentia o corpo

e os olhos da mulher transformaram-se

de repente em fontes de mercúrio

 

atrás da guilhotina

espreitava agora uma porta aberta.

 

 

3

 

Saiu pela porta e pegou na mala de viagem

tinha uma mala de viagem à espera e um caderno de pequenos

textos incompletos onde há muito tempo guardara paisagens

na mala faltavam algumas peças de roupa

no caderno de pequenos textos faltavam finais

no entanto era óbvio para ela que bastavam aqueles dois utensílios

para suportar o peso inconstante da felicidade ou do infortúnio

e que neles caberia o volume incerto de qualquer aventura.

 

 


Posted at 02:26 pm by Astrophel
Comentários (3)  

intramuros
Seguia uma figura estranha que subia os degraus das muralhas até ao topo. Não sabendo explicar porquê, contudo, apenas percorria as ruas observando da calçada as pernas e o rosto quase branco nas escadas que subiam às muralhas. Talvez então houvesse uma certeza para as coisas mais simples da vida, esquecendo-se dos grandes autores e dos grandes demagogos universais, centrando-se quase oblíquo nuns olhos que não reflectissem brilho algum, apenas alguma poeira e algum cansaço próprio de turista que visita um sítio distante. E todas as janelas na sua oferta de cortinas lhe parecem então cerradas, todos os rostos nas varandas congelados de um lençol de morte quase calma e ténue, enquanto um corpo atravessa tão rapidamente as pedras que edificaram em tempos em torno das casas (ou as casas mais tarde por dentro dos muros), e o sol existe sem no entanto se ver, um balão de fogo, para que noutro local alguém o tente apanhar, sem sequer saber ou imaginar o estado em que ficarão as suas mãos.

Da vila não se avista a superfície do sol.

Posted at 12:17 pm by groze
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Friday, June 03, 2005
¼xª
nunca tinha saido do seu pais mas tambem não sentia
que isso lhe tivesse feito alguma falta
nao saia de casa porque da parte da frente
da sua casa a sua casa era amarela
saiba-se isso para que se contextualize
a situacao ou entao so para que se imagine
aquela figura ambulante pelas janelas da parte da frente
de uma casa amarela
amarela e preta e de vez em quando nevava por cima da casa
nunca tinha realmente saido do seu pais e nao sentia
que isso lhe tivesse feito falta
da parte da frente da sua casa via os electricos
que passavam e as montras das lojas que no inverno eram as
mesmas que no verao e na primavera mas reflectiam
as vidas amargas dos electricos amarelos
que passavam
as vezes considerava a cor da sua casa e a cor
dos electricos e imaginava as vidas das pessoas que
viajavam pendularmente nos electricos amarelos
amarelos como a sua casa e como as suas maos e os
seus olhos
mas como e obvio sempre mais as suas maos do que
os seus olhos uma vez que a pele tem mais tendencia a ser
amarelada do que os globos oculares
nunca tinha saido de sua casa mas imaginava uma vida como
a das pessoas que todos os dias encontrava nas paragens
do electrico que passava defronte da casa amarela e negra
e as vezes nevava
nunca saira realmente de casa levava a casa consigo para as
paragens dos electricos e falava com as pessoas
sem falar com as pessoas mas no entanto
no entanto era feliz embora reparasse numa certa tristeza nos olhares
de quem seguia caminho no electrico
qual era o numero do electrico
talvez o dezoito ou o trinta ou o vinte e dois
o vinte e dois seguia um percurso turistico pelos bairros
mais esquecidos e sujos e negros da cidade
e no vinte e dois seguiam turistas que largavam luz pelos becos onde
as prostitutas abriam as pernas ao calor dos homens
e as vezes nevava sobre as prostitutas e as suas pernas
e nesses dias o calor dos homens acalmava
e amaldicoavam as prostitutas e as suas pernas e os becos
sem tecto por onde os turistas vaporizavam luz
e depois em casa
oh dear look at that what a funny odd looking thing
we caught on film
mas ele nao nunca tinha saido de casa e no entanto
pois claro no entanto conhecia todos os turistas
tirava-lhes o chapeu num acto cortes e eles respondiam
sem nunca abrirem a boca e sem nunca sequer repararem
na sua figura de gabardine e pasta debaixo do braco
e de vida debaixo de um candeeiro de uma lampada

de uma lâmpada.

Posted at 12:16 pm by groze
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Monday, May 23, 2005
humus
palavras à parte
jamais cearia com um profeta dormente que vomite de dentro do seu ventre toda a raça humana.

sóbria, ou não.

jamais conviveria ou viveria com um profeta que surja apagado de dentro das estrelas mortas e convide as palavras para a mesa para o leito.

abomino num estertor os profetas.
os poetas
talvez também
os pretensos
talvez
os profetas.

Posted at 11:54 am by groze
Comentários (2)  

caótica

não há um ponto único
indizível
manto
sem
onde.

apenas uma histeria de Labirintos
amontoando-se.
invariavelmente.


Posted at 02:40 am by §J§
Comentário (1)  

 
Thursday, May 19, 2005
o sabor dos lábios

Em maio

comíamos nêsperas maduras

e observávamos o despontar

vermelho dos morangos

 

as nossas bocas

haveriam de se habituar ao fruto

recém-chegado

(ao processo natural de renovação)

mas jamais perderiam o travo doce

daquele que íamos esgotando.



Posted at 09:24 pm by Astrophel
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Friday, May 13, 2005
Ocular (Inquérito de Répteis Adultos)
qual é o seu tipo de homem?

a) casaco e sapatos e barba e cabelo e meias e óculos de sol e um certo interesse pelas culturas ancestrais enquanto alimenta um gato chamado "Alfredo" que caga fora da caixa de areia.
b) gato chamado "Alfredo" e uma caixa de areia e meias e gorro e cabelo atado e às vezes fita outras vezes sorriso e tabaco e droga e álcool e liberdade e bestialidade e sexo anal tão ocasional quanto possível.
c) come e bebe e senta-se e escreve coisas e pensa em gatos chamados "Alfredo" de pelagem tigrada a caçar pássaros e a cagar fora de caixas de areia.

(Apesar de tudo, morreria sem conhecer nenhum dos três. a) e b) não, seguramente.)

1. a enumeração.
2. o cansaço.
3. os jornais diários.
4. os estojos.
5. a música.
6. os sorrisos.
7. as conversas.
8. os olhares.
aí estão, reunidos, os ingredientes para uma vida quase não e quase falsa. um submundo de vida, entenda-se.
todos os outros são arrotos de humanidade.
arrotos
da
humanidade.

Hoje dói-me sobremaneira o corpo. O pescoço da alma.

Posted at 04:35 pm by groze
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Facto de Banho
Os pombos são alcatrão que respira pelo ar quando procuram as migalhas que os ácaros vão arrancando da nossa pele. Os pombos, alcatrão alado, respiram-me as patas dos sagitários e riem-se "sagitário, quadrúpede, sabemos o teu destino para lá das tuas chávenas de café, sabemos as nuvens de aves e a correcção dos dias que escreves. sagitário, quadrúpede, sabemos a tua missão de sombras e o teu desígnio de estrelas. sabemos para onde vais e as coisas que começas, sem acabar. o que te importa? a paz? a paz
é um
restaurante de sagitários quadrúpedes e míopes."
Quem me salvará de tudo isto são os peixes. aquáticos e frios, de guelras abertas ao zodíaco, escamados e a boiar nas panelas.

(às vezes gosto de pensar que sou contra-tenor e, assim, pertenceria a um grupo restrito de pessoas. a minha cabeça
é contra-tenor.)

Posted at 04:24 pm by groze
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