...Ossa et Cinera...







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Rumba dos Inadaptados
(Ou A Morte do Jovem Contribuinte)


No quarto impecável, ao lado do corpo, a carta, com um último artigo a sair no jornal de Domingo, no correio dos leitores, dizia assim: "Sou jovem. Honesto, estudante. Trabalho, sou pago: eu pago os impostos, as letras, os juros, da casa, dos móveis, dos livros na estante, dos discos, dos filmes: Que hei-de fazer? Eu vou ao cinema, eu leio poemas, gosto de ler! Eu voto, eu escolho, eu olho nos olhos dos casos, dos factos, das coisas concretas: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico! Eu estou preocupado e um pouco dorido ao ver que em várias revistas adultos, ministros, artistas, nas entrevistas da tv, demonstram que os jovens são brutos, boémios, incultos, autistas, não têm emprego, ou são arrivistas e mal educados: são tão depressivos, são tão destrutivos, que hei-de fazer? Com 23 anos já não faço planos: para quê fazer? Eu vivo da esperança na vaga mudança que nunca vai acontecer: Eu não tomo drogas, não sou alcoólico!"

João Paulo Simões
(Quinteto Tati)




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Friday, November 25, 2005
Consideração espaço-temporal
parada, observa, num banco de jardim, comendo um bolo de arroz,
três ou quatro pássaros acastanhados que debicam qualquer coisa
vermelha como um órgão
(talvez um fígado, independemente das descrições ao longo das aulas de ciências naturais e afins)
e juntamente com pedaços disso, algumas formigas que se passeiam por ali.
observa sem se mover os olhos negros dos pássaros, as cabeças de lado
dos pássaros, debicando pedaços de coisa
coisa vermelha como um bocado de ser
uma cabeça ou um cérebro,
um feto
(fetos como os de outros textos ou não)
e adquirindo de uma massa mais ou menos comestível algumas formigas
e os pássaros que debicam assim as coisas
coisas como órgãos
sabem as coisas e abanam as cabeças freneticamente para separar
pedaços que debicam das coisas no chão dos parques
coisas vermelhas e sanguíneas, como órgãos
(fígados, ou pâncreas)
e enquanto isso, observa, parada, manchas vermelhas
no bolo de arroz e os pássaros súbitos dentro da boca
a debicar bocados de um órgão,
de uma coisa vermelha, como uma língua, talvez,
por onde passeiam formigas e à tarde o sol põe-se
atrás das colinas e as urzes em contra luz abrigam pássaros acastanhados que debicam
sândalo ou outra madeira que lembre órgãos.

Posted at 12:15 pm by groze
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Friday, October 28, 2005
ornitorrinco
nada mais que um dedo sobre a mesa contra uma parede resta
e que aponta esse dedo
um caminho
não obstante o que já se fez
ou o que se deixou de fazer.
um animal bebé
um feto
rouxo
róseo
um dedo pequeno
entre a mesa e a parede
o hematoma a nódoa
o nojo
o caminho aberto sobre os olhos
sobre as mesas entre as paredes
da alma
o dedo magoado aponta um caminho
mais ou menos estranho e mais ou menos difícil.
por entre os cabelos ossos e cinzas
ossa
et
cinera
de facto.

obiit die.

Posted at 12:13 pm by groze
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Wednesday, October 19, 2005
As divindades
As divindades choravam lágrimas ígneas
junto ao berço sideral do mundo
e os homens recém-nascidos
incapazes de compreender o efeito
irreversível das fúrias momentâneas
construíam bombas
e erguiam torres de Babel gigantes.

As divindades esperavam por um oráculo
que diagnosticasse com exactidão
a crónica disfuncionalidade das espécies
e entretanto embalavam o berço sideral do mundo
entre convulsões e espasmos de loucura.


Posted at 10:58 am by Astrophel
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Chuva de Verão
Quando saí à rua
erguendo com uma mão o guarda-chuva
e apoiando a outra na tua cintura
quando saímos à rua e o recorte nocturno
dos barcos estacionados na ria
formava o cenário perfeito
para o plano final de um filme
ou para o começo de uma aventura
enquanto me fui confundindo
entre a inevitabilidade da partida
e a aproximação perigosa do teu corpo
enquanto a chuva nos abrigava
do abismo incalculável da noite
um homem solitário
encostado à ombreira de um restaurante
fumava um cigarro e olhava a nossa coreografia
e pensava que um dia mais tarde
a roda da fortuna mudaria as peças de lugar
e eu deixaria de existir
ou então existiria solitariamente
encostado àquela ombreira
e seria ele a apoiar a mão na tua cintura.


Posted at 10:53 am by Astrophel
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Tuesday, October 11, 2005
No tempo em que brincávamos entre as trevas

 

Era esse o momento

de uma brisa inesperada

de uma oscilação repentina na órbita circular

dos corpos

porque tu falavas a voz grave

de outros homens eternamente tristes

que não eram eu

nem tu

mas que nos consumiam

como se de facto existissem em nós

porque também na minha boca

faltavam palavras

exactas

coerentes

quando construía frases soltas que pretendiam dizer

não sei o quê

talvez absolutamente nada

mas e enfim

que haveria eu de responder

à falta de objectividade

ao absurdo

se brincávamos entre as trevas em ascensão

de uma ou outra distopia

se nos intervalos mínimos desse jogo colectivo

continuava o ruído

continuava a quebra de sentido

e a facilidade de uma brisa

inesperada.

 

 


Posted at 01:13 pm by Astrophel
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Tuesday, September 27, 2005
a um estranho desconhecido
ocorre-me, por exemplo, Herberto Helder

Passeiam pela rua mastigando a língua e sobre a língua
uma colher lembrando as estações do ano que passam
umas sobre as outras
e logo sobre a língua mal seja o tempo
de as estações passarem sobre a língua
mastigada que passeia pelas ruas olhando estátuas em jardins
que olham de volta e depois novamente
para as estações a crescer nos seus umbigos de gesso.

Passeiam pelas estações mastigando a colher na boca e na língua
e olham a cidade que devolve os olhares das estátuas de gesso
nos umbigos dos parques e nas malas de mão das senhoras
que leram demasiadas peças de teatro fechadas num apartamento
sem nunca terem visto
contudo viram os que passam pelas ruas mastigando as estações e entre as estações
uma colher sobre os dentes,
lembrando línguas e entre essas línguas
outras olham de volta e depois novamente para os dentes das
estações que passam umas sobre as outras.

Mal seja o tempo de se ceifar as línguas e de as colheres na boca
saberem a metal e a olhos escuros e fundos de estações
de comboio.

Posted at 12:19 pm by groze
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Monday, September 26, 2005
city of apostates
largo o carro numa colina qualquer, como se me quisesse desfazer dos seus cheiros e do dinheiro que gastei sobretudo em combustível e dentro do carro largo todos os documentos que me reconhecem
cidadão
de algum lugar. da colina avisto a cidade e o carro avança desocupado pela encosta em direcção a lugar nenhum. desocupado e no entanto cheio de mim enquanto cidadão de um sítio qualquer e de uma série de memórias pela encosta, rolando com alguma velocidade de encontro a um sítio de escombros e sombras de nada.
a cidade está vazia de tudo e de pessoas também. está vazia. é um templo deserto de estátuas e emoções que nunca se desenvolveram para lá de umas luzes estranhas sobre as portas dos bares, quando anoitece. todos os corpos na cidade são como gárgulas nas janelas dos prédios, anunciando aos carros que resvalam desocupados de tudo pelas encostas da colina em direcção a um pomar de esquecimentos e de álcool etílico ou não quais os benefícios do sono e do esquecimento
e de dentro do álcool os carros desocupados observam o
cidadão
de algum lugar a nascer de novo e a passar por gabinetes e guichets e notários e cartórios em busca de papéis que o definam novamente enquanto
Eu
maiusculado.

Posted at 04:02 pm by groze
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Wednesday, September 07, 2005
Acordar

 

A cara colada ao lençol

 

mas há a luz e a comoção exterior a preencherem

a vacuidade do quarto. 

 

é uma sensação estranha acordar assim quase sem vida

quase esgotado com a quase certeza de que não existe

realidade e o que lá tentamos colocar não faz sentido.

 

O corpo a despregar-se da cama

 

enquanto os automóveis buzinam em harmonia com o piano imaginário

talvez real de uma mão que ficou presa às teclas a esta distância

do mundo parece Liszt os segundos iniciais de Prelude & Fugue

on B-A-C-H  o piano em sintonia como os automóveis enquanto

o autocarro das oito contorna uma curva depressa demais

e o chiar incómodo de pneus e chassis derrapa no peitoril da janela

enquanto o peitoril da janela juntamente com o autocarro e os automóveis

e a mão de Liszt crescem no quarto num foco de luz sonoro.

 

Os olho remelosos

a respiração subitamente ofegante

e a janela

a janela em contínua sintonia com...

 

estou vivo.

existo.

 

queria apanhar o eléctrico até ao castelo pegar-te pela mão poder

dizer de novo os nomes da cidade do outro lado fica o barreiro vivi aí

durante anos noutra margem oposta a esta faz-me falta a rotina

do nosso amor as ciências e as filosofias actuais não me deixam pensar

com clareza há ainda a economia as moedas de troca o crepúsculo em ruínas

da manhã não me deixa acreditar... pegar-te pela mão...

dizer-te os nomes...

 

estou vivo

 

dentro de um automóvel ou de um autocarro ou sentado no peitoril

de uma janela a inumerar as contradições incoerências especulações e por isso

certamente por isso apodreço no lugar estático de espectador

aborrecido há um foco de luz sonoro nos jardins da gulbenkian

enquanto os pombos gordos assassinam mais um melro há um foco

de luz sonoro na rua augusta enquanto as lojas e os comerciantes

e os passageiros ocasionais se atropelam na ossiânica falta

de coordenação mas algo belo resiste sob os escombros em movimento

a cidade à espera que o tempo leve como o mar algo belo o tempo-mar

levando as marcas de uma civilização o tempo-mar trazendo novas

consciências novas formas de olhar a cidade.

 

[há quase uma ausência temporal quando estamos sós

porque a condição humana de solidão contrai-nos a memória

remete-nos para outras dimensões para outros espaços

e então é a própria concepção de tempo que se parece abstrair de nós

e deixamos de sentir a vida numa única linha contínua]

 

estou vivo.

existo.

 

penso que existo.

e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.

 

Vista do castelo a cidade é quase inteira quase moldura orgânica

jamais morta jamais esgotada e quase me convence no seu ciciar

ondulante que no topo da colina estamos juntos estamos sós      

a cidade e eu sem mais ninguém a encher-nos de equívocos.

 

 


Posted at 02:03 pm by Astrophel
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Friday, July 15, 2005
...

 

“e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricouer como os amantes de agora amam o rosto do infinito

e, então, eu pegava na caneta preta

sempre uma caneta preta

e começava a escrever na folha de papel

que cobria a mesa destes sítios onde nos íamos perdendo

destes sítios onde nos encontrávamos com a regularidade

dos amantes inconscientes do tempo que passa


escrevia

no silêncio das tuas frases a ausência de mim:
‘‘e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricoeur como os amantes de agora amam o rosto do infinito’’

e, depois, no espaço que antecedia o adeus

sempre um adeus

ou no compasso de espera pelo último whisky

olhava as palavras que ficariam no papel abandonado

e deitado ao lixo e pensava se seria eu-mesmo realmente um outro

ou ainda um resto de sombra na caverna das noites sem fim”

 

 


Posted at 08:34 pm by Astrophel
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Monday, July 11, 2005
chidori (raikiri)
lentamente o tempo de tempestade surge detrás das cortinas,
no calor que a terra anuncia nesses afrontamentos de menopausa
precoce, o tempo de tempestade que afasta os pássaros em
movimentos teleguiados de controlo remoto,
de carro a pilhas movido por cordas e roldanas e díodos de luz.
aos díodos de luz chamemos de LEDs, é este o seu nome
técnico e voltemos ao tempo de tempestade que as cortinas
deixam já antever, por entre também um certo céu rubro,
alaranjado, mecânico no seu vago acto de esconder o sol
numa penumbra desértica.
lentamente
o tempo de
tempestade surge por entre o chilrear dos pássaros
num susto de frutos e de flores volantes e vivas de cores e sabores
alheios aos homens. são talvez os relâmpagos que o chilrear dos pássaros
corta em pequenas fatias de luz,
frutos celestes mas ao mesmo tempo tão térreos como
as árvores e os prédios,
abatendo-se sobre as árvores e sobre os prédios,
os edifícios ofuscantes de deus ou outra ideia divina qualquer
(chamemos-lhe LEDs, é este o seu nome
técnico)

Posted at 01:05 am by groze
Comentários (2)  

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