Entry: ... Friday, July 15, 2005




 

“e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricouer como os amantes de agora amam o rosto do infinito

e, então, eu pegava na caneta preta

sempre uma caneta preta

e começava a escrever na folha de papel

que cobria a mesa destes sítios onde nos íamos perdendo

destes sítios onde nos encontrávamos com a regularidade

dos amantes inconscientes do tempo que passa


escrevia

no silêncio das tuas frases a ausência de mim:
‘‘e, então, pousavas os talheres paralelamente

sobre o prato e dizias:

‘visar à vida boa com e para os outros nas instituições justas’

repetias frases sobre as éticas modernas e o colapso moral e amavas

Ricoeur como os amantes de agora amam o rosto do infinito’’

e, depois, no espaço que antecedia o adeus

sempre um adeus

ou no compasso de espera pelo último whisky

olhava as palavras que ficariam no papel abandonado

e deitado ao lixo e pensava se seria eu-mesmo realmente um outro

ou ainda um resto de sombra na caverna das noites sem fim”

 

 

   2 comments

Celso
August 1, 2005   03:24 AM PDT
 
Que belíssimo texto. Primeira vez neste blog. Mas voltarei, por certo.

Saudações
Soledade
July 23, 2005   12:01 PM PDT
 
A cena do quotidiano, a reflexão sobre o mundo, e o desgarramento dos seres. Esta melancolia suavemente fltrada que invade o poema... Que beleza!

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