Entry: Acordar Wednesday, September 07, 2005



 

A cara colada ao lençol

 

mas há a luz e a comoção exterior a preencherem

a vacuidade do quarto. 

 

é uma sensação estranha acordar assim quase sem vida

quase esgotado com a quase certeza de que não existe

realidade e o que lá tentamos colocar não faz sentido.

 

O corpo a despregar-se da cama

 

enquanto os automóveis buzinam em harmonia com o piano imaginário

talvez real de uma mão que ficou presa às teclas a esta distância

do mundo parece Liszt os segundos iniciais de Prelude & Fugue

on B-A-C-H  o piano em sintonia como os automóveis enquanto

o autocarro das oito contorna uma curva depressa demais

e o chiar incómodo de pneus e chassis derrapa no peitoril da janela

enquanto o peitoril da janela juntamente com o autocarro e os automóveis

e a mão de Liszt crescem no quarto num foco de luz sonoro.

 

Os olho remelosos

a respiração subitamente ofegante

e a janela

a janela em contínua sintonia com...

 

estou vivo.

existo.

 

queria apanhar o eléctrico até ao castelo pegar-te pela mão poder

dizer de novo os nomes da cidade do outro lado fica o barreiro vivi aí

durante anos noutra margem oposta a esta faz-me falta a rotina

do nosso amor as ciências e as filosofias actuais não me deixam pensar

com clareza há ainda a economia as moedas de troca o crepúsculo em ruínas

da manhã não me deixa acreditar... pegar-te pela mão...

dizer-te os nomes...

 

estou vivo

 

dentro de um automóvel ou de um autocarro ou sentado no peitoril

de uma janela a inumerar as contradições incoerências especulações e por isso

certamente por isso apodreço no lugar estático de espectador

aborrecido há um foco de luz sonoro nos jardins da gulbenkian

enquanto os pombos gordos assassinam mais um melro há um foco

de luz sonoro na rua augusta enquanto as lojas e os comerciantes

e os passageiros ocasionais se atropelam na ossiânica falta

de coordenação mas algo belo resiste sob os escombros em movimento

a cidade à espera que o tempo leve como o mar algo belo o tempo-mar

levando as marcas de uma civilização o tempo-mar trazendo novas

consciências novas formas de olhar a cidade.

 

[há quase uma ausência temporal quando estamos sós

porque a condição humana de solidão contrai-nos a memória

remete-nos para outras dimensões para outros espaços

e então é a própria concepção de tempo que se parece abstrair de nós

e deixamos de sentir a vida numa única linha contínua]

 

estou vivo.

existo.

 

penso que existo.

e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.

 

Vista do castelo a cidade é quase inteira quase moldura orgânica

jamais morta jamais esgotada e quase me convence no seu ciciar

ondulante que no topo da colina estamos juntos estamos sós      

a cidade e eu sem mais ninguém a encher-nos de equívocos.

 

 

   3 comments

Ed Hardy Outlet
July 23, 2011   08:25 AM PDT
 
men ended up skeptics as well as Deists; that they exclusively planned a new secular govt through an "unbreachable wall" involving religious organization along with point out; that they perhaps composed in the treaty while using Moslem land involving Tripoli a specific affirmation that will, contrary to The european union, your "United Claims is just not, in any impression, a new Alfredia land. " (So evidently realized ended up being your rule involving separating involving religious organization along with point out during those times that this treaty handed down The nation's lawmakers with virtually no controversy in that will offer, along with Us president Bob Adams closed the idea immediately, with virtually no worry who's may possibly put in danger the politics potential. )
Márcia
September 15, 2005   01:43 PM PDT
 
<i>penso que existo.

e a realidade é um aspecto secundário a essa constatação.</i>

com certeza. um belo poema.
que bom que voltou.
whyme
September 9, 2005   01:29 PM PDT
 
Finalmente alguém se atreveu a colocar um novo post! Gostei muito do poema, parabéns! Agora não fiques (m) é outra vez tanto tempo a escrever para a gaveta :-)

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